Plano que prevê que Gafisa e Tenda sejam listadas
em separado na bolsa, reforçando a geração de valor para a incorporadora
Exame.com
| 07 de Fevereiro de 2014
São Paulo - O Conselho de
Administração da Gafisa autorizou
estudos para potencial separação dos negócios Tenda, voltado à
baixa renda, e Gafisa, que atua na média-alta renda, dentro de uma estratégia
para que ambas sejam listadas em separado na bolsa. O anúncio levava as ações
da incorporadora a saltarem cerca de 6 por cento nesta sexta-feira.
Os planos
dão prosseguimento à reestruturação da companhia iniciada no fim de 2011, na
sequência da venda de 70 por cento da divisão de loteamentos urbanos de alto
padrão Alphaville para os fundos Pátria e Blackstone em junho, numa operação
concebida para diminuir o endividamento do grupo Gafisa.
Às 11h13, os papéis da companhia
lideravam os ganhos do Ibovespa com alta de 5,98 por cento, a 3,19 reais,
diante de variação positiva de 0,77 por cento do índice.
Para o presidente da Gafisa,
Duilio Calciolari, a investida representa uma "evolução natural"
diante da falta de similaridade entre os dois negócios.
"A sinergia entre Tenda e
Gafisa é quase nada, é muito baixa, com rede de fornecedores diferente",
afirmou em entrevista à Reuters. "A gente acredita do ponto de vista do
investidor que hoje ele não tem opção de comprar só Gafisa ou só Tenda. Esse é
um processo que vai ser iniciado agora."
Esqueleto no armário
A ideia de separar os negócios
também marca uma mudança na aposta da companhia em projetos residenciais mais
baratos, calcada na expansão da classe média e expansão do programa de
habitação popular Minha Casa, Minha Vida.
Comprada em 2008 depois de sofrer
expressiva desvalorização na bolsa, a Tenda acabou revelando-se um esqueleto no
armário da Gafisa após sucessivas revisões nos custos dos empreendimentos e
cancelamento de contratos de clientes sem condições de honrar os
financiamentos.
Após admitir que a companhia não
havia avaliado a extensão dos problemas operacionais e gerenciais da Tenda, a
Gafisa resolveu reduzir drasticamente os riscos no segmento.
Os
lançamentos da divisão, que somaram 1,6 bilhão de reais em 2010, foram cortados
a zero em 2012 e retomados com apetite moderado no ano passado, quando foram
equivalentes a menos de um terço dos lançamentos do segmento Gafisa.
"Estamos reescrevendo a
história de Tenda, virando a página do passado", disse Calciolari,
completando que a consequência final da separação, caso ela de fato aconteça,
será que cada acionista de Gafisa possua também uma ação de Tenda.
Destravar valor?
Para o BTG Pactual, a
possibilidade de investir em cada empresa individualmente deve ser enxergada de
forma positiva pelos investidores, especialmente em um momento em que a empresa
vai retomar a alocação de capital na Tenda.
"Acreditamos que o movimento
pode até mesmo destravar valor, já que o mercado parece estar subavaliando a
combinação dos dois negócios", disse o banco, em relatório assinado por
Marcello Milman. O analista fez ressalva de que o aumento dos custos
administrativos poderá ter um peso desproporcional sobre o lucro da Tenda, que
está nos estágios iniciais do aumento de lançamentos.
Classificando o anúncio de
surpreendente, o time de analistas do Itaú BBA lembrou que muitas implicações
do eventual desmembramento seguem desconhecidas, como a definição de uma
estrutura de capital para cada uma das unidades.
"Apenas o tempo dirá se os
potenciais benefícios de ter as duas empresas separadas vão superar os
benefícios de tê-las sob o mesmo guarda-chuva", escreveu o analista do BBA
David Lawant.
"Mas
nosso primeiro olhar para as ações da Gafisa é positivo no longo prazo,
principalmente porque isso permitirá que os investidores decidam suas alocações
de capital entre Gafisa e Tenda", disse.
Mudanças de gestão
No fato relevante desta
sexta-feira, a Gafisa informou que o Conselho aprovou a divisão das estruturas
administrativas como primeiro passo para facilitar os estudos de separação.
Esta fase deverá durar 90 dias, após os quais Duilio deixará o cargo, se
colocando à disposição do Conselho de Administração.
Avaliando que esse tempo será
suficiente para a companhia entender e distribuir as atividades administrativas
entre as empresas, ele afirmou que os trabalhos deverão se estender por outros
meses, sendo encerrados ainda este ano.
Se a proposta for aprovada pelo
Conselho e pelos acionistas em assembleia geral, a expectativa é que a
separação dos dois negócios seja concluída em 2015, com solicitação à Comissão
de Valores Mobiliários (CVM) para que as ações da Tenda sejam negociadas em
bolsa com listagem no Novo Mercado.
Sandro Gamba, atual
diretor-executivo de Gafisa, será o presidente-executivo de Gafisa, e Rodrigo
Osmo, diretor-executivo de Tenda, será presidente da Tenda. André Bergstein
continuará no posto de vice-presidente financeiro da Gafisa.
A companhia conta com assessoria
financeira do banco Rothschild no processo.
