O grupo Odebrecht investiu 10 bilhões de reais em
etanol. Hoje só tem dívidas e prejuízos. Discretamente, negocia agora uma
solução radical para o problema
Thiago Bronzatto | Exame.com | 17 de
Fevereiro de 2014
![]() |
| Usina da Odebrecht Agroindustrial: 50% da capacidade |
São Paulo - Ninguém está fazendo
tantos negócios no Brasil de hoje quanto o conglomerado baiano Odebrecht. O fôlego
do grupo tem sido impressionante. Somente nos últimos três meses, arrematou
três concessões com investimentos previstos de quase 24 bilhões de reais em
aeroporto, rodovia e sistema de transporte urbano.
Hoje, a Odebrecht tem 14 empresas
e fatura cerca de 100 bilhões de reais por ano. Tudo parece muito bem, mas, por
trás dessa voracidade toda, se esconde um problemão — a investida do grupo no
setor de etanol. Criada em 2007 com o nome ETH Bioenergia, a Odebrecht
Agroindustrial já consumiu cerca de 10 bilhões de reais na construção e na
expansão de usinas de etanol pelo país.
O plano era assumir a liderança
de um mercado promissor e abrir o capital em 2012. Para isso, comprou em 2010 a
quebrada Brenco, usina modernosa criada por gente como o magnata das
comunicações Steve Case, o investidor indiano Vinod Khosla e o empresário
brasileiro Ricardo Semler. Passados sete anos, porém, a empresa se transformou
numa gangrena que pode repercutir no conglomerado inteiro.
Tudo deu errado com a Odebrecht
Agroindustrial. A empresa sofre dos males que afligem todo o setor de etanol (o maior
deles é a concorrência desleal com o preço da gasolina, mantido artificialmente
baixo pelo governo). Mas sofre também por ter muita dívida. Na última safra, a
empresa teve um prejuízo de 1,2 bilhão de reais, o maior de sua história.
Nas últimas três safras, a dívida
da companhia dobrou de tamanho, para 10 bilhões de reais, o que representa 22
vezes sua geração de caixa. A média do setor é três vezes, segundo o banco Itaú
BBA. Suas usinas operam atualmente com apenas 50% da capacidade.
O resultado de 2013 acendeu a luz
vermelha na Odebrecht. As despesas com pagamento de juros cresceram.
Mesmo respondendo por apenas 2,5% da receita do grupo, a empresa é responsável por
16% do endividamento total da Odebrecht. Embora ninguém fale abertamente sobre
o assunto, uma crise de insolvência no braço de etanol poderia colocar em risco
a reputação de todo o grupo.
“Essa área é minha maior preocupação”,
diz Marcelo
Odebrecht, presidente do conglomerado, cuja dívida total
dobrou de 2011 a 2012, atingindo 62 bilhões de reais (o número de 2013 ainda
não foi divulgado).
Discretamente, a Odebrecht
começou a colocar em operação um plano para resolver o problema de forma
radical. Ameaça cortar, se o setor não melhorar, os 3 bilhões de reais em
investimentos previstos para os próximos três anos.
No fim de 2013, o grupo
transferiu algumas usinas e parte da dívida da Odebrecht Agroindustrial para
outra empresa do conglomerado, a Odebrecht Energias Renováveis, que investe em
geração de energia eólica e solar.
A operação ocorreu apenas no
papel, já que a Odebrecht Agroindustrial continuará operando as usinas, e quase
4 bilhões de reais do endividamento total serão migrados ao longo dos próximos
três anos. O objetivo é claro — diluir o risco de insolvência da empresa. Ao
mesmo tempo, o grupo propôs um aumento de capital para a Odebrecht
Agroindustrial que pode chegar a 2 bilhões de reais.
Com o aporte, conseguiria
transformar a dívida em algo mais razoável e captar mais recursos. O problema é
que a Odebrecht tem sócios minoritários no negócio — as gestoras de recursos
Tarpon e Ashmore.
Eles não gostaram nada da ideia
de acompanhar uma capitalização que, para eles, tem como objetivo final aliviar
a situação do grupo Odebrecht. Segundo EXAME apurou, os dois acionistas não
devem participar da operação e, portanto, terão sua participação diluída. Não
que eles esperassem ter retornos fantásticos para seus investimentos.
Em dezembro, a Ashmore, dona de
13% das ações, fez uma provisão de perdas equivalente a 90% de seu aporte. Já a
Tarpon, que tem 2,5% da Odebrecht Agroindustrial, dá de ombros para a operação.
Há mais de um ano, reconheceu a perda quase total de seu investimento na
companhia, que correspondia a 0,5% do total de recursos sob sua gestão.
Desde 2011, os sócios da Tarpon
não se envolvem mais com a empresa. Procuradas, Tarpon e Ashmore não
comentaram. Se ninguém embarcar na capitalização, a conta vai sobrar toda para
a Odebrecht.
A
esperança, claro, é que o velho e bom BNDES, sócio da
empresa com 14% das ações, ajude. Procurado, o BNDES disse que ainda não tem um
posicionamento sobre o tema. Com a capitalização e quase metade da dívida
transferida para outra empresa do grupo, a Odebrecht teria um pouco mais de
tempo para resolver o problema de sua aventura no etanol
