Jairo
Marques e Fernando Serapião | Jornal Folha de São Paulo | 11 de Outubro de 2013
Uma das últimas grandes áreas livres ao longo da
marginal Pinheiros começará a receber neste ano as obras de um Empreendimento
bilionário que terá impacto tanto na paisagem como no trânsito complicado da
zona sul da cidade de São Paulo.
A estrutura completa contará com cinco torres
residenciais, hotel, shopping e prédio comercial até 2020.
Mas, dentro de quatro anos, já é programada a
entrega dos prédios de moradia -prazo em que a empresa também terá que
construir três faixas de uma nova pista local de dois quilômetros de extensão
na marginal, no sentido da zona sul, no trecho da ponte do Morumbi ao Parque
Burle Marx.
O acordo foi fechado com a CET (Companhia de
Engenharia de Tráfego) para atenuar os transtornos do empreendimento,
localizado num terreno de 217 mil metros quadrados -tamanho equivalente a cerca
de três estádios do Pacaembu.
Atualmente, a região onde as obras serão erguidas,
com expectativa de vendas de R$ 8 bilhões, já fica parada de carros nos
horários de pico.
O projeto almeja a criação de um
"bairro", na contramão do que deseja a gestão Fernando Haddad (PT) no
futuro Plano Diretor da capital -de adensar áreas da cidade onde já existe boa
rede de transporte e infraestrutura.
As empresas responsáveis pelo projeto, Bueno Netto
e Related Brasil, prometem compensações milionárias e alegam estar prevista no
local uma estação de monotrilho da futura linha 17-ouro.
A primeira fase dessa obra sobre trilhos, entre a
marginal e Congonhas, é prevista para 2014. Mas a segunda etapa, que pode
chegar ao empreendimento, não tem ainda contrato nem licença.
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OITAVO SHOPPING
Além das três faixas extras na marginal Pinheiros,
já está acertada a doação de cerca de 15 mil mudas de plantas e um repasse de
R$ 4,2 milhões para a restauração do prédio da Secretaria Estadual da Justiça,
no centro.
"Estamos negociando com a prefeitura e vamos
contribuir pesadamente para a construção da nova ponte no Panamby [orçada em R$
130 milhões]. Estamos também desenvolvendo projeto de segurança que vai
monitorar todas as ruas da altura do shopping Jardim Sul até a avenida Morumbi",
diz Luciano Amaral, diretor do Bueno Netto.
O novo shopping previsto na marginal (o primeiro
erguido pela empresa na cidade) será o oitavo em um raio de cerca de seis
quilômetros.
"Vamos fazer uma conectividade do shopping,
das torres residenciais e comercial com os bairros da região por meio de vias
para carros, bicicletas ou a pé. Assim, evita-se acessar a marginal",
afirma Amaral.
Análise: Projeto na marginal pode ser comparado a uma ilha
Localizado sobre o antigo bota-fora do rio
Pinheiros, o Parque Global se enquadra na tendência de lançamentos de grandes
empreendimentos que agregam uso comercial, residencial e serviços. Promete
ainda um parque e uma estação de metrô.
Se na teoria a mistura de uso é benéfica para a
cidade, na prática, pela maneira em que essa mistura foi realizada, ela pode
beneficiar só os próprios usuários. Por quê?
Por culpa da atual legislação e dos consumidores,
cada uso ocupa uma porção isolada do empreendimento.
Pontos centrais desta constatação é o shopping, que
não valoriza a rua como eixo comercial, e as torres residenciais, ilhadas.
Um fato preocupante que as pesquisas de mercado
apontam: se o consumidor de apartamentos pequenos, para solteiros ou casais,
deseja a franca mistura de uso, com térreo ocupado por comércio e serviços e
que valorize o convívio social na rua, o consumidor de unidades maiores,
destinadas a famílias, percebem esse mix de forma negativa, preferindo o
isolamento em ilhas com "lazer completo".
Deduzo um paradoxo óbvio: em resposta à
insegurança, famílias estão construindo para seus filhos uma cidade mais
agressiva e desumana.
Por outro lado, se o projeto em questão fosse
aprovado levando em conta as ideias do Plano Diretor atualmente em discussão,
ele seria melhor.
Isso porque a municipalidade está propondo
incentivar o uso público da rua como local de convívio, não contabilizando
espaços comerciais no térreo dos edifícios, inclusive residenciais.
Outro agravante do empreendimento é sua localização.
Distante da malha urbana e à beira de uma via expressa, ele pode ser comparado
a uma ilha.
O ponto central é: como conectá-lo à cidade? Se
ninguém imagina que chegará andando até lá, a ponte entre o empreendimento e a
cidade será um sem-número de carros.
Se a estação de metrô é o dado positivo da
conversa, outras contrapartidas exigidas pela municipalidade, como a ajuda
financeira à construção de mais uma ponte sobre o rio, irão ajudar a secar
gelo.
