Enquanto Robert Shiller, Prêmio
Nobel, prevê bolha no Brasil, analistas afastam possibilidade, mas mostram
preocupação com algumas empresas listadas na Bovespa
Beatriz
Olivon | Exame.com | 14 de Outubro de 2013
São Paulo – Um dos alertas mais recentes de Robert
Shiller (um dos ganhadores de hoje do prêmio Nobel de
economia) para o Brasil é o de uma bolha
imobiliária – tema que o professor de Yale domina. Para
quatro analistas consultados por EXAME.com, não há bolha imobiliária no radar e
a explicação para as dificuldades das empresas do setor estaria mais nelas
mesmas do que no cenário externo.
No primeiro semestre deste ano,
das 20 construtoras e incorporadoras listadas na Bolsa relacionadas pela
consultoria Economática, sete apresentaram prejuízo
na primeira metade do ano e cinco viram seu lucro cair em relação ao mesmo período
do ano passado. Por enquanto, o Índice Imobiliário (IMOB) tem o pior
desempenho entre os índices setoriais da Bovespa
em 2013.
Mas o desempenho tortuoso não
estaria, necessariamente, ligado a uma bolha. “Os níveis atuais de preço, no
mercado imobiliário, não condizem com a evolução da renda, isso sinaliza um excesso
de valorização nos preços de imóveis, mas para chamar de bolha, estamos longe”,
afirmou Marcelo Torto, analista da Ativa Corretora. Apesar de o crédito imobiliário ter crescido 37% entre janeiro e julho, no
Brasil, a representatividade dele em relação ao PIB é de 7,5%.
Os preços no mercado imobiliário
no Brasil mudaram nos últimos anos. O “reajuste” dos últimos cinco anos, como
os analistas falam, reflete um mercado estagnado por muito tempo e uma
conjunção de fatores, como o crescimento da renda da população e o déficit
habitacional.
No final de 2009 e começo de
2010, algumas construtoras estavam com o caixa robusto em decorrência das
ofertas públicas de ações em 2007 – ano em que o setor dominou os IPOS. Com
dinheiro e incentivos do governo, foram realizados muitos lançamentos e com
eles, em alguns casos, vieram os problemas.
“A partir de 2008, com capital
estrangeiro, muitas construtoras tiveram grandes aportes de capital e começaram
a investir sem bom direcionamento”, afirmou Marcelo Torto. Esse ciclo de
investimentos está se encerrando agora, mas mesmo assim, o atual cenário para
as construtoras é negativo, para o analista. De acordo com a Ativa, as empresas
que estão se saindo melhor são as que não tiveram grandes aportes de capital no
passado e um crescimento desordenado – mas a corretora não tem nenhuma
recomendação de compra entre as construtoras.
“Execução é um fator estratégico.
Muitas construtoras estão,
até hoje, entregando prejuízo. Ainda é a execução que separa o joio do trigo no
setor”, afirmou Felipe Silveira, analista da Coinvalores. Entre as
recomendações de compra da Coinvalores estão Eztec, JHSF e Even. A Coinvalores
não recomenda exposição aos papéis da Gafisa e PDG “mais por não conseguirmos
ver se a estratégia adotada a partir do ano passado é vencedora ou não”, disse
Silveira.
Para Wesley Bernabé, analista do
BB Investimentos, o que diferencia as empresas do setor que estão na bolsa hoje
é a geração de caixa. “Hoje, com o mercado desacelerado, os investidores veem
quem passou do nível de endividamento. Companhias que já geram caixa ou tem
mais expectativa de gerar caixa no curto prazo são beneficiadas em relação às
que ainda lutam com o endividamento”, afirmou Bernabé, citando, no segundo
grupo, Rossi, PDG e Brookfield. O BB Investimentos vê com bons olhos MRV, Cyrela
e Eztec.
“O grande problema é que o boom
dos preços me parece que já passou”, disse Pedro Galdi, estrategista-chefe da
SLW Corretora. Para Galdi, o excesso de novos empreendimentos, associado ao
maior volume imóveis usados sendo vendidos, interrompe o eventual ajuste de
preços, mas os preços tendem a se reajustar. “A bolha não vai estourar, se
assim podemos dizer, mas os preços tendem a se ajustar a maior oferta de
imóveis para baixo”, afirmou.
Para Bernabé, rumores sobre uma
possível bolha imobiliária não afastam investidores – mas o endividamento e
boatos sobre o cenário macroeconômico doméstico um pouco fragilizado podem
impactar. Para Silveira, o mercado imobiliário tem retomado antes da economia.
“As vendas tem sido fortes esse ano e as construtoras tem voltado a crescer,
até porque o crédito imobiliário tem sido um foco de crescimento dos bancos.
Para as construtoras, a questão é olhar o próprio umbigo e saber até onde pode
crescer”, afirmou.
