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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

FMI alerta para expansão de crédito e risco de bolha imobiliária no Brasil

Por Denise Chrispim Marin, Correspondente / Washington

Relatório, liberado pelo governo brasileiro pela primeira vez, aponta também preocupação com volatilidade do mercado de capital


O Brasil pode ser "vítima do próprio sucesso". O alerta do Fundo Monetário Internacional (FMI) refere-se aos riscos da expansão acelerada do crédito e também da redução da taxa básica de juros, a Selic, sem o necessário alongamento dos prazos de crédito. Bolhas em preços no setor imobiliário e o endividamento das famílias são dois dos riscos mais evidentes.


No documento "Avaliação da Estabilidade do Sistema Financeiro", divulgado ontem, o FMI chama a atenção também para os riscos externos ao setor provocados pela volatilidade do mercado de capitais e pelos preços das commodities.

"Há risco de o sistema financeiro tornar-se vítima do próprio sucesso no País", disse Dimitri Demekas, diretor-assistente do Departamento de Mercados Monetários e de Capitais do Fundo, ao Boletim Digital do FMI. "A expansão acelerada do crédito nos últimos anos apoiou o crescimento da economia interna e o aumento da inclusão financeira. Mas essa expansão também poderia gerar vulnerabilidades."

Essa foi a primeira vez que o governo brasileiro autorizou a divulgação do documento pelo FMI. A avaliação é feita desde 1999, a cada cinco anos, em 25 países. Desde 2002, quando houve a primeira avaliação do Brasil, o FMI constatou "crescimento, diversificação e sofisticação do sistema", que se mostrou capaz de atravessar "excepcionalmente bem" a crise de 2008.

O ambiente atual, porém, é de desafios, alerta o Fundo. A expansão do crédito nos últimos anos é um deles, mesmo sendo o total de empréstimos em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) ainda baixo. Essa situação não representa risco para os grandes bancos, mas gera vulnerabilidade para os pequenos.

O Fundo reforça sua mensagem em favor da redução da Selic. Porém, chama a atenção das autoridades brasileiras para o fato de essa queda gradual romper o atual equilíbrio no sistema financeiro brasileiro de juros altos e crédito de curto prazo. Será preciso, portanto, extremo cuidado para acomodar a economia e o setor financeiro em novo equilíbrio, mais saudável, de juros baixos e crédito de longo prazo.

Sem esse cuidado, vários riscos podem emergir. Se mexer só na Selic, o Banco Central pode estimular a alta da inflação, criar instabilidade macroeconômica e favorecer a formação de bolhas de preços de ativos, especialmente de imóveis. Se apenas estimular o alongamento do prazo do crédito, pode ampliar demais o passivo financeiro.

Nessa tarefa, será requerida a mudança de foco do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Há duas semanas, em sua avaliação da economia brasileira, o FMI já havia feito a mesma recomendação para o BNDES concentrar-se mais no crédito de longo prazo - em especial a empresas sem capacidade de captar recursos no setor privado - e no financiamento de projetos de infraestrutura. O BNDES, salientou o Fundo, precisa deixar de lado os empréstimos de baixo risco - como os concedidos à Petrobrás - e tornar-se mais competitivo.

Em outro documento, sobre a observância das regras da Basileia pelo sistema bancário, o FMI insistiu na necessidade de o governo aprovar legislação para garantir, formalmente, a autonomia do BC. A questão, informa o documento, "continua em aberto". O País pôs em prática as regras de Basileia 2 e está em consultas para a aplicação gradual das de Basileia 3. Mas será preciso, reforçou o FMI, também reformar a governança do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

De forma geral, o FMI considerou o sistema financeiro brasileiro "amplo, concentrado e altamente conectado, no âmbito doméstico". O sistema é formado por 1.475 instituições de depósito cujos ativos, somados, superam 100% do PIB do País. A capitalização é superior ao mínimo recomendado. Os cinco maiores bancos respondem por dois terços dos ativos. A presença de instituições estrangeiras ainda é menor que em outros países latino-americanos. Esses bancos controlam menos de 20% do total de ativos do setor do País.

Fonte: Jornal O Estado de S.P.