A dois
meses do início da safra, usinas de açúcar e álcool estão endividadas e sem perspectivas
de expansão; gigantes do setor admitem que podem fechar unidades
Mônica Scaramuzzo e Fernando Scheller | Jornal O Estado de São Paulo | 03
de Fevereiro de 2014
Tempos difíceis pela frente. A quase dois meses do
início da safra 2014/15, as usinas de açúcar e etanol do centro-sul do Brasil
vão começar o novo ciclo descapitalizadas e sem perspectivas para expansão -
cenário não muito diferente do ano anterior. O faturamento do setor para a
safra 2013/14, que se encerra em março, deve fechar em cerca de R$ 70 bilhões -
quase a soma das dívidas dessas indústrias. "As usinas começam a nova safra
já devendo uma safra inteira", diz Alexandre Figliolino, diretor do Itaú
BBA.
O setor viveu seu boom de investimentos no início
dos anos 2000, impulsionado pela retomada do consumo do etanol proveniente do
aumento da venda dos carros flex. Agora, as empresas tentam empurrar para
frente a dívida contraída, sobretudo entre 2006 e 2008, quando passaram por
movimento de expansão e consolidação.
Altamente endividadas para bancar a expansão dos
negócios, as empresas foram abatidas pela crise global a partir de setembro de
2008. Algumas das tradicionais famílias de usineiros cederam espaço para grupos
internacionais, que se aproveitaram da fragilidade financeira das companhias
para entrar no setor (ler abaixo). Hoje, cerca de 40 grupos estão em
recuperação judicial e dezenas de unidades foram desativadas.
Não foi fácil para muitas empresas reduzir de forma
mais expressiva o nível de endividamento, observa Andy Duff, diretor do banco
holandês Rabobank. "Agora, com preços de açúcar menores, mesmo com a
compensação de um real mais fraco, as margens devem seguir pressionadas",
afirma. "A relação dívida/Ebitda de várias empresas deve subir. A dívida
não está caindo e o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e
amortização) está diminuindo, a patamares que acendem luzes amarelas, ou até
vermelhas, porque a capacidade da empresa para pagar as dívidas e manter o
investimento pode ser comprometida, sinalizando a necessidade de buscar mais
dívida."
No mercado de etanol, a situação também é
desanimadora. Com a política do governo de segurar o preço da gasolina para
conter a inflação, o combustível verde perdeu competitividade. E as descobertas
do pré-sal deixaram o etanol de escanteio.
Terceiro maior grupo do País, a Odebrecht
Agroindustrial não descarta fechar unidades nos próximos dois anos, caso a
situação não se reverta. A empresa decidiu entrar nesse segmento em 2007, auge
da expansão das usinas. Em sete anos, posicionou-se entre as líderes. "Se
a situação não se resolver, o plano B não é bonito. Vamos fechar usinas",
diz o presidente Luiz de Mendonça.
Mendonça deixou claro que, apesar de a empresa
fazer parte de um conglomerado nacional, sua capacidade de investimento é
limitada. A subsidiária tem a meta de investir mais R$ 1 bilhão por ano, em
2014 e 2015, para atingir sua meta de moagem de cana, de 40 milhões de
toneladas/ano. Na atual safra, a companhia moeu 22,5 milhões de toneladas.
O endividamento continua a preocupar a Odebrecht
Agroindustrial. A atual situação da empresa levou o fundo britânico Ashmore,
que detém 13% do negócio, a fazer uma provisão equivalente a 90% de seu
investimento. A Ashmore era originalmente uma das sócias da Brenco, empresa que
enfrentava sérias dificuldades financeiras e foi incorporada à ETH em fevereiro
de 2010. "Se nada mudar, vamos em breve ver a Brenco, 2.ª parte."
Mendonça diz que o setor precisa saber qual é o plano do governo para o etanol
dentro da matriz energética. "Precisamos de um número para trabalhar a
partir dele."
Longo prazo. A União da Indústria da Cana-de-açúcar
(Unica) reforça o coro. "Queremos medidas de longo prazo. Temos um canal
aberto com o governo, mas temos de ter um sinalizador para o futuro",
afirma Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da entidade.
Enquanto esses sinais não chegam, disciplina financeira
é a palavra de ordem das usinas. Segundo maior grupo do País, a Biosev,
controlada pelo grupo francês Louis Dreyfus, segue à risca essa cartilha e
trabalha para expandir a produtividade de suas usinas em operação. À frente da
Biosev desde o fim do ano passado, Rui Chammas afirma que em um cenário
desafiador a companhia tem de ser rigorosa com a produtividade. "Temos de
maximizar o uso dos ativos e buscar agregação de valor de suas usinas em
operação", diz o executivo, em uma linguagem de mercado pouco usual até há
pouco tempo no setor, antes dominado por grupos familiares.
Com 12 unidades em operação, a companhia está
extraindo ao máximo o uso da tecnologia no campo para elevar a rentabilidade,
sem fazer expansão. "Plantamos a cana com GPS para saber o caminho a ser
feito pela colheitadeira para não ter desperdício", diz. "A melhor
maneira de agregar valor ao acionista é trabalhar com disciplina financeira e
usar os ativos da melhor maneira possível."
"O nome do jogo hoje é custo baixo", diz
Figliolino, do Itaú BBA. "As usinas estão mais preocupadas com custos do
que com expansão."
Segundo Júlio Maria Martins Borges, da consultoria
Job Economia, este será o segundo ano seguido que as usinas operaram com preços
abaixo do custo de produção. "O setor passou por mudanças nesses últimos
anos. O produto (cana) é o mesmo, mas o negócio é diferente", afirma,
referindo-se às mudanças de gestão das usinas, que passaram a se preocupar com
boas práticas de governança. "A administração do negócio tornou-se complexa.
Os grandes grupos já estão nesse caminho. Os médios buscam estruturação
adequada, com a adoção de conselhos consultivos."
Com a crise em curso, o intenso movimento de fusão
e aquisição está lento. "O setor está em baixa por questões conjunturais e
os negócios não estão acontecendo por expectativas divergentes em relação aos
valores dos ativos", diz Guilherme Paes, presidente da área de banco de
investimentos do BTG.