Revisão
dos valores venais dos imóveis feita pela gestão Haddad prevê reajuste para o
principal ponto de concentração de usuários de droga
Adriana Ferraz e
Rodrigo Burgarelli | Jornal O Estado de S.Paulo | 04 de Outubro de 2013
A valorização imobiliária em São Paulo chegou até a
região da Cracolândia, no centro. Pelo menos é o que mostra a nova Planta
Genérica de Valores (PGV), usada como base para o cálculo do Imposto Predial e
Territorial Urbano (IPTU). A revisão dos valores venais dos imóveis proposta
pela gestão de Fernando Haddad (PT) estabelece uma alta de 135% no valor do
metro quadrado das construções existentes, por exemplo, no cruzamento da Rua
Helvetia com a Alameda Dino Bueno, principal ponto de concentração de usuários
de crack.
Segundo projeto de lei que será votado pelos
vereadores até o fim do ano, o metro quadrado de uma casa localizada na Alameda
Dino Bueno custa hoje R$ 1.420. Em 2009, seu valor venal era de R$ 602. Perto
dali, na Rua Helvetia, a valorização foi parecida - passou de R$ 615 para R$
1.452. O mesmo aumento é proposto para as Alamedas Glete e Cleveland.
Em alguns quarteirões, o preço ficou ainda maior. O
valor do metro quadrado de um imóvel com frente para a Rua Guaianases, quase na
esquina com a Avenida Duque de Caxias, passou de R$ 1.105 para R$ 2.417. Vale
lembrar que o valor venal é menor do que o praticado pelo mercado.
Enviada ontem à Câmara Municipal, a revisão da PGV
revela que, para a Prefeitura, a valorização sofrida pela área mais degradada
da capital é quase a mesma que a observada na Avenida Paulista, também no
centro. Na quadra entre as Ruas Itapeva e Professor Otávio Mendes, o cálculo
venal do metro quadrado cresceu de R$ 9.507 para R$ 22.133 - alta de 132%.
Em São Paulo, a localização da porta do imóvel faz
toda a diferença. O metro quadrado de um prédio com entrada pela Paulista, por
exemplo, chega a custar quase três vezes mais que o de um imóvel construído na
mesma quadra, mas virado para uma rua transversal. O valor do metro quadrado da
nova PGV confirma: na Rua Itapeva, apesar de a valorização ter sido quase a
mesma, o valor do metro quadrado passou de R$ 2.683 para R$ 6.251. E, na
Professor Otávio Mendes, a alta foi de R$ 2.574 para R$ 5.963.
Padrão. O porcentual usado pela gestão Haddad para
definir a valorização dos imóveis da capital segue o mesmo padrão em toda a
cidade, de acordo com levantamento aleatório feito pelo Estado. Com base na
nova PGV, é possível obter dados semelhantes em bairros que concentraram
lançamentos imobiliários, como a Vila Andrade, na zona sul, e a Lapa, na zona
oeste. Na Rua Coriolano, por exemplo, o metro quadrado passou de R$ 860 para R$
1.772.
Os novos valores atribuídos ao metro quadrado de
todos os bairros de São Paulo definirão a taxa que cada contribuinte vai pagar
de IPTU a partir de 2014. Para não repassar o aumento total no imposto, a
Prefeitura planeja criar teto de 30% no reajuste residencial e de 45%, no
comercial.
Ontem, parlamentares da base aliada ao prefeito
Haddad optaram por analisar a proposta de aumento com cautela. Roberto Tripoli
(PV) afirmou que o reajuste é "salgado", mas pode ser necessário para
bancar o congelamento do preço da passagem de ônibus em R$ 3 no próximo ano. Já
Rubens Calvo (PMDB) afirmou que os vereadores poderão discutir um teto de
reajuste mais baixo e apresentá-lo em forma de substitutivo ao projeto de lei.
Do lado oposto, a bancada do PSDB sustenta ser injusto
o aumento e afirma que não apenas os "ricos" serão prejudicados. Para
o presidente da Câmara Municipal, José Américo (PT), as discussões serão
acaloradas, mas a proposta do Executivo deve prevalecer.