Leslie
Josephs |
The Wall Street Journal | 21 de Março de 2014
Com um nome que lembra um droide
de "Guerra nas Estrelas" e a reputação de ter um gosto ácido, o grão
de cacau CCN 51 é um herói improvável da indústria do chocolate, que movimenta
US$ 110 bilhões por ano.
Alguns fabricantes e agricultores
se voltaram para o grão das árvores altamente produtivas do CCN 51 para
combater a escassez iminente da produção de cacau, enquanto que outros juram
que nunca o usarão.
A oferta global de cacau deve
ficar aquém da demanda pela segunda temporada consecutiva. Fabricantes de doces
estão aflitos à medida que o consumo cresce em países em desenvolvimento, como
Brasil, China e Índia, ao mesmo tempo que a produtividade das árvores de cacau
estagnou e alguns agricultores migraram para outras culturas. A Mars Inc.,
empresa americana que fabrica o chocolate M&M, estima que o mundo vai
precisar de um milhão de toneladas adicionais de cacau em 2020, 25% a mais que
hoje.
Uma solução possível: uma
variedade de cacaueiro conhecida como CCN 51. Desenvolvida no Equador por um
agrônomo há quase 50 anos, sua produtividade pode chegar a ser cerca de quatro
vezes superior à média mundial.
A produção mundial de cacau ficou
abaixo da demanda em 174.000 toneladas na safra que terminou em setembro. Este
ano, a demanda deve superar a oferta em 115.000 toneladas, de acordo com a
Organização Internacional do Cacau, ou OIC, à medida que os consumidores de
mercados emergentes abocanham um pedaço maior da oferta mundial de cacau.
O Brasil está entre os maiores
produtores de cacau do mundo e, pelas estimativas da OIC, produziu 185.000
toneladas na safra de 2012/13, menos que as 220.000 toneladas da anterior.
A organização, sediada em
Londres, espera que a tendência continue por cinco anos, o que amplia a
necessidade de uma variedade com alta produtividade. Na quarta-feira, o cacau
para entrega em maio chegou a US$ 3.025 a tonelada na bolsa americana ICE
Futures, perto do recorde dos últimos dois anos e meio, embora tenha caído 1,7%
ontem.
Adotar a nova variedade nos
trópicos pode soar como uma decisão fácil dada a maior produtividade. Mas o CCN
51 provoca um debate acalorado entre os "chocolatiers". Os grandes
fabricantes estão incorporando as novas sementes em sua produção, mas alguns
vendedores especializados dizem que o chocolate feito com esses grãos não é
saboroso. Alguns confeiteiros temem que as árvores do CCN 51 acabem
substituindo as variedades ricas e saborosas do cacau da Bacia do Rio Amazonas,
onde o produto teve sua origem.
A Lindt & Sprüngli AG, empresa suíça que
faz as trufas Lindor, afirma que não usa o CCN 51. A empresa recentemente
ajudou a financiar um estudo do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos
para encontrar uma forma de testar o DNA do grão de cacau e eliminar as
variedades indesejadas.
"O sabor do CCN 51 [...] é
insípido", diz Francisco Javier Gómez, diretor de negócios internacionais
da empresa colombiana CasaLuker AS. "É para os chamados produtos de grande
escala."
Para os grandes fabricantes de
chocolate, aumentar a produtividade das árvores existentes é essencial para o
futuro da produção do alimento. Contrariamente a outras grandes commodities
como algodão ou milho, que são culturas anuais, os cacaueiros demoram ao menos
quatro anos para produzir uma colheita comercialmente viável.
"O CCN é um burro de
carga", diz Howard Yana Shapiro, diretor agrícola da Mars. "É um
cultivo dos sonhos que se tornou realidade." Suas árvores são altamente
produtivas e as sementes no interior dos seus frutos são maiores e produzem
mais manteiga de cacau que a maioria das outras variedades. A manteiga de cacau
é usada para dar cremosidade ao chocolate.
A Mars e a Mondelez
International Inc., fabricante da marca Cadbury, afirmam que o grão
do CCN 51 pode aparecer na manteiga de cacau usada em seus produtos. A Cargill
Inc. e a suíça Barry
Callebaut AG, dois dos maiores processadores de cacau do mundo,
informam que processam grãos do CCN 51.
Produtores equatorianos começaram
a plantar o CCN 51 para valer depois que suas colheitas foram atingidas pelo
mau tempo no fim dos anos 90. A produção do país dobrou nos últimos dez anos.
A hiperprodutividade peculiar do
CCN 51 também é seu ponto fraco. A semente do cacau cresce dentro de frutos
ovais. Quando eles são partidos ao meio, as sementes estão cobertas de polpa
úmida. O que dá ao chocolate seu sabor é o processo de fermentação, quando as
sementes são colocadas numa caixa por quatro a seis dias. A variedade CCN 51
produz mais sementes, mas também mais polpa. O processo de fermentação deixa o
chocolate com um sabor forte demais e dá ao grão um sabor ácido e amargo.
As mudanças na indústria do cacau
e do chocolate ocorrem muitas vezes em ritmos glaciais. A perspectiva do CCN 51
é um assunto delicado, principalmente na floresta amazônica, onde os produtores
dizem que seus grãos têm sabores únicos e delicados. Na África, os produtores
temem que uma mudança para uma única variedade, embora de alta produtividade,
possa deixar a fonte de quase 70% do fornecimento de cacau do mundo suscetível
a doenças.
A qualidade dos grãos CCN 51, porém,
está melhorando. A fermentação foi reduzida ao longo das últimas dez colheitas.
"As primeiras [colheitas] do CCN 51 tinham um sabor muito azedo e [a
variedade] não era vista como uma opção viável para a fabricação de
chocolate", diz Kip Walk, que está há 30 anos no setor de cacau e é
diretor de sustentabilidade da Blommer Chocolate Co., sediada em Chicago, uma
das maiores processadoras de cacau da América do Norte. A empresa compra grãos
CCN 51 do Equador. "Esse sabor tem melhorado muito e o CCN faz parte das
fórmulas de chocolate hoje," diz.
