Com anúncio das
fábricas da Honda e da Mercedes, produção de veículos no interior de São Paulo
será maior do que no berço do setor
Ricardo
Brandt | Jornal O Estado de São Paulo | 21 de Outubro de 2013
A
inauguração até 2016 das fábricas das montadoras de veículos Honda, em Itirapina, e da Mercedes-Benz, em Iracemápolis, consolidará no
interior paulista o "polo caipira das montadoras", que ultrapassará
em unidades de produção o ABC Paulista - berço da indústria automotiva do País.
Em cinco anos, a área
entre Campinas, Sumaré, Sorocaba e São Carlos receberá quatro grandes
montadoras, com investimentos de R$ 4 bilhões e a geração de 6,7 mil empregos
diretos. Além das fábricas anunciadas, a coreana Hyundai iniciou atividade
neste ano em Piracicaba e a japonesa Toyota abriu sua segunda fábrica no
interior, em 2012, em Sorocaba.
As quatro montadoras, somadas às instaladas durante
o primeiro ciclo de expansão do setor, na década de 1990, no governo do
presidente Fernando Henrique Cardoso, elevarão para sete o número de indústrias
automotivas (sem contar as de máquinas agrícolas) dentro desse "polo"
no interior paulista. A Volkswagen funciona desde 1996, em São Carlos; a Honda
desde 1997, em Sumaré (cidade próxima a Campinas); e a Toyota desde 1998, em
Indaiatuba. A montadora japonesa anunciou ainda que investirá R$ 1 bilhão em
uma fábrica de motores, em Porto Feliz.
No ABC paulista existem seis indústrias de carros,
comerciais leves, caminhões e ônibus, instaladas em São Bernardo do Campo e São
Caetano do Sul - região polo dos primeiros investimentos da indústria
automobilística no País, a partir de 1959. Em 2011, dos 1,45 milhão de veículos
produzidos em São Paulo, 880 mil saíram do ABC e 574 mil das demais unidades do
Estado - que concentra 42% da produção nacional. Os dados são da Associação
Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).
Com a produção da Toyota em Sorocaba, da Hyundai em
Piracicaba, da Honda em Itirapina e da Mercedes em Iracemápolis, 356 mil carros
a mais serão produzidos no interior paulista a partir de 2016, roubando do ABC
o título de maior produtor do País.
A desconcentração das indústrias automobilísticas
dessa região teve início em 1976 com a ida da Fiat para Betim (MG) e se
intensificou na segunda metade dos anos 90, com o novo regime automotivo.
"Existe uma saturação do ABC em relação a áreas para essas indústrias. Os
incentivos maiores dados por essas prefeituras também pesam para a saída das
montadoras dessa região", afirma Luiz Carlos Mello, diretor do Centro de
Estudos Automotivos (CEA) e ex-presidente da Ford.
Para Mello, a relação qualidade de vida/custo e o
fator logístico são pontos decisivos para que o interior paulista puxe
novamente para o Estado os investimentos das montadoras, nesse segundo ciclo de
expansão do setor - impulsionado pelo programa federal Inovar-Auto, que prevê
incentivos à produção nacional.
"O interior de São Paulo tem sido um grande
polo de investimento das montadoras nos últimos meses. Isso porque a região
está próxima de rodovias importantes, o que permite o escoamento da produção
para o porto (de Santos) e para outros Estados. Além disso, tem a proximidade
com a rede de fornecedores, com universidades que qualificam os profissionais
para trabalharem nas empresas e ainda com o mercado consumidor", avalia o
presidente da Anfavea, Luiz Moan.
A entidade estima que R$ 74 bilhões sejam
investidos em todo o Brasil nesse novo ciclo de expansão do setor que deve ir
até 2017, último ano do Inovar-Auto - o que elevará a capacidade nacional de
produção para 5,8 milhões veículos por ano.
Transformações
Com logística privilegiada, oferta de mão de obra
qualificada, rede completa de fornecedores instalada, dentro dos dois maiores
mercado consumidores do País (o interior paulista e a capital) e sem gargalos
dos grandes centros urbanos, o novo polo automobilístico com sotaque caipira
intensificará a transformação da região.
Os novos empregos, com a decorrente migração
populacional, somados ao movimento financeiro que as indústrias provocarão,
forçarão o desenvolvimento urbano de cidades de pequeno e médio porte, antes
dependentes do setor agrícola, em especial a cana. As unidades da Toyota, Hyundai, Honda e Mercedes abertas
entre 2012 e 2016 no "polo caipira das montadoras", empregarão 12,7
mil pessoas, sem contar os empregos indiretos.
Só em Piracicaba, com a Hyundai, além dos 2 mil
postos de trabalho diretos, foram gerados 3 mil vagas nas nove unidades
fornecedoras de componentes e outras 20 mil indiretas. A Mercedes-Benz, que começa a funcionar em 2015
em Iracemápolis, produzirá 20 mil carros por ano e gerará mil empregos diretos
e mais 3 mil indiretos. Hoje, o município de 20 mil habitantes tem 7,1 mil
postos de trabalho. "Temos consciência de que é preciso oferecer uma mão
de obra que não temos disponível hoje", afirma o prefeito de Iracemápolis,
Valmir de Almeida (PT).
Uma unidade do Serviço Nacional de Aprendizagem
Industrial (Senai), com capacidade para 1,2 mil alunos, está em construção no
município, que não tem tradição industrial. "Acho que para a região toda
vai ser bom, porque vai gerar muitos empregos", afirma o brigadista Luiz
Teodoro, 48 anos, que trabalha na Usina Iracema - maior geradora de receitas de
Iracemápolis.
"Existirá, para a maior parte dessas cidades,
o antes e o depois das montadoras. Piracicaba, que já era um município
estruturado, com indústrias e um setor metalúrgico forte, passou por essa
transformação com a chegada dos coreanos da Hyundai", afirma Luciano de
Almeida, presidente da Investe São Paulo, órgão do Estado que fomenta a atração
de investidores.
Segundo ele, a região não só tem disponibilidade de
mão de obra qualificada, como conta com uma cadeia de fornecedores ampla e
estruturada, que foi essencial na escolha das montadoras. "O que contou na
escolha da Hyundai foi que, a partir de Piracicaba e Santa Bárbara d?Oeste, em
um raio de 30 quilômetros é possível montar um carro completo. Há fornecedores
de vidros, de embreagens, de freios, de pneus. É um grande polo de
autopeças", explica Almeida.
Para o governo, a disponibilidade de grandes áreas
perto de rodovias estratégicas para instalação das montadoras e de suas
fornecedoras também tem pesado. "A coqueluche do momento são áreas
próximas da Anhanguera, da Bandeirantes e da Castelo Branco."
Mão de obra
Cidades como Campinas, Piracicaba e Limeira têm
ainda mão de obra qualificada já disponível no setor metalúrgico e a presença
de escolas técnicas é farta, segundo o presidente da Investe SP. Um dos
diretores do Sindicato dos Metalúrgicos de Limeira e Região, órgão que
acompanhou as negociações de instalação da Mercedes e da Honda, Wilson
Cerqueira, afirma que a chegada das montadoras eleva a qualidade profissional
regional e também o piso salarial. "Vamos voltar a discutir data base,
jornada, piso e outras questões em 2015, mas já temos um pré-acordo",
afirma.