Mario Cesar Carvalho |
Jornal Folha de S. Paulo | 10 de setembro de 2013
Trens
correndo no subterrâneo, tal qual metrô, na região central de São Paulo. Parque
linear restituindo o verde e a água das chuvas nas margens do rio Tietê.
Investimentos que podem chegar a R$ 20 bilhões.
Ambição
é o que não falta ao Arco Tietê, plano que a prefeitura começa a debater hoje.
É o primeiro passo para a criação do Arco do Futuro, principal projeto urbano
do prefeito Fernando Haddad (PT), cujo objetivo é juntar moradia, emprego e
requalificação do espaço.
Ideias
como o enterramento dos trilhos de trem, que hoje cortam a cidade como um muro,
foram apresentadas por 17 consórcios para uma área que vai do entroncamento das
rodovias Anhanguera/Bandeirantes (zona oeste) à Dutra (zona norte), cortada
pelo rio Tietê, e equivale ao tamanho da ilha de Manhattan, em Nova York.
AMBIÇÃO
O
secretário de Desenvolvimento Urbano da prefeitura, o arquiteto Fernando de
Mello Franco, disse à Folha que só um projeto desse porte pode mudar São
Paulo.
"Não
tenho medo do gigantismo do plano. Se não pensarmos grande, a cidade vai se
amesquinhar."
Mello
Franco cita dois marcos da história de São Paulo para ilustrar onde quer
chegar: Prestes Maia (1896-1965), o prefeito que criou o plano de avenidas nos
anos 1920-30 e mudou o traçado da cidade, e a usina hidrelétrica Henry Borden,
de 1926, que alavancou a industrialização.
"O
Arco Tietê é um plano para ter repercussão daqui a 30 anos", afirma.
Alguns ícones, porém, devem ficar prontos em quatro anos.
Editoria de arte/Folhapress
O
debate que começa hoje, com uma audiência pública no Memorial da América
Latina, visa confrontar as ideias dos consórcios com o que quer a população.
Após
a discussão, as empresas terão seis meses para apresentar modelos mostrando a
viabilidade urbana, econômica e jurídica do plano.
A
área é estratégica, segundo o secretário, porque conecta a cidade com o
interior, tem zonas industriais, como a produção de roupas no Bom Retiro, trem,
metrô, um rio a ser recuperado e bairros pouco ocupados, como a Água Branca,
com 30 habitantes por hectare, menos da metade da média da cidade (70).
Os
planos dos consórcios vão de travessias só de pedestres e bicicletas sobre o
rio Tietê ao enterramento da ferrovia. Há ainda o plano de criar um parque nas
margens do rio, que alagaria com as chuvas e teria piscinas. Uma das propostas
prevê 50 mil moradias populares.
Há
planos de escritórios internacionais, como o Aecom, dos EUA, que tem 45 mil
funcionários, o Arcadis, da Holanda, e o Apur (Atelier Parisien d´Urbanism), da
França. Participam também empreiteiras como Odebrechet e Queiroz Galvão.
Para
bancar o plano, a prefeitura pretende lançar mão de parcerias, concessões e
investimento direto. Uma das ideias é oferecer áreas públicas para os
consórcios em troca de investimentos.
Um
exemplo: a SPU (Secretaria do Patrimônio da União) pode transferir áreas da
antiga Rede Ferroviária Federal para a prefeitura, que cederia os terrenos aos
consórcios.
Outra
área federal que está entre os alvos do Arco Tietê é o Campo de Marte, que
abriga um aeroporto. Ele pode virar parque, com construções numa pequena área.
DIFICULDADES
A
maior dificuldade é como viabilizar economicamente um plano desse porte,
segundo o arquiteto Guilherme Wisnik, curador da próxima Bienal de Arquitetura.
A
razão é a baixa capacidade de investimento da prefeitura, por causa da dívida
de R$ 54 bilhões com a União.
Há
ainda o problema de conciliar as escalas das grandes vias com o cotidiano
miúdo. "O grande desafio é articular obras de infra-estrutura com calçadas
que estimulem o caminhar. Não é fácil transformar o entorno da marginal Tietê
em uma cidade", afirma.
Ele
elogia, porém, a ambição do plano. "Está havendo uma retomada do
planejamento. Não mais o planejamento da ditadura, mas o que junta grandes
obras com o cuidado com o pedestre."
