Eduardo Geraque, Ricardo Gallo | Jornal Folha de S. Paulo
| 26 de agosto de 2013
São
Paulo das torres residenciais de costas para as ruas, cercadas de muros e
andares e mais andares de garagem não irá mais existir -ao menos não no entorno
de corredores de ônibus, trem e metrô, prevê o novo Plano Diretor proposto pela
gestão Fernando Haddad (PT).
A
prefeitura quer exigir que os prédios residenciais próximos de polos de
transporte abram espaço para comércio no térreo e não sejam tão generosos na
abertura de vagas para carros em garagens.
Pelas
proposta, que será enviada à Câmara no mês que vem, perdem espaço os paliteiros
-prédios altos e estreitos em relação ao terreno.
Esse
modelo de conjunto surgiu na última década em regiões como a avenida Jornalista
Roberto Marinho (zona sul) ou o bairro da Vila Leopoldina (zona oeste). São
prédios dotados de estrutura de dar inveja a muitos clubes.
No
lugar, entra um padrão comum em São Paulo até os anos 1970 -proibido pela lei
atual e que voltará a vigorar em uma área equivalente a 12% do espaço urbano.
A
"nova cidade" será constituída de prédios colados uns aos outros, com
calçadas largas (de cinco metros; mais do que o dobro de hoje), comércios no
térreo e integrados à rua, tal qual a rua Fradique Coutinho (zona oeste) ou a
av. São Luís (centro).
"Temos
que imaginar que vivemos em uma cidade com milhões de pessoas. Não podemos ter
um padrão único de urbanização", disse o arquiteto Fernando Mello Franco,
secretário municipal de Desenvolvimento Urbano.
O
conceito que sustenta o plano é fazer as pessoas morarem mais perto de onde
estão as modalidades de transporte público coletivo.
Um
exemplo "perfeito" do modelo que se pretende alcançar, diz Mello
Franco, é o Conjunto Nacional, na avenida Paulista: uma construção que une
parte comercial à residencial, com jardim suspenso e aberto para a rua.
PALITEIROS MAIS CAROS
Para
levar adiante a ideia, o Plano Diretor incentivará a construção de prédios que
aproveitem melhor o terreno, tenham mais unidades e menos vagas de garagem,
apenas uma por apartamento.
A
premissa é que, por morar ao lado de um corredor de transporte, o carro será um
objeto dispensável.
Haverá
um concurso de arquitetura para premiar projetos que se enquadrem nas
características do perfil de prédio que a prefeitura quer.
Ao
mesmo tempo, a prefeitura quer desestimular nesses lugares um campeão de vendas
do mercado atual: os chamados "condomínios-clube", aquelas torres
cercadas de grandes áreas de lazer, com menos apartamentos por andar e muitas
vagas de estacionamento à disposição.
Ficará
mais caro, por exemplo, erguer um prédio que ocupe uma pequena parte do
terreno. Esse dispositivo, presente na lei atual, resultou em uma profusão de
paliteiros.
No
novo Plano Diretor, esse tipo de construção exigirá pagamento adicional para a
liberação da prefeitura, o que hoje não ocorre.
GARAGEM
Outra
mudança prevista no Plano Diretor da cidade é que, quanto mais vagas de
garagens oferecer aos moradores, menos andares o prédio poderá ter.
"Não
que isso não vá mais existir na cidade. A tendência é que essas construções
fiquem em áreas distantes do transporte público", diz o secretário Mello
Franco.
O
mercado imobiliário criticou: diz que os imóveis devem ficar mais caros e que,
se do ponto de vista urbanístico o plano parece ideal, na prática, pode ser
inviável.
