Por Sérgio Tauhata
O empresário Ricardo Monteiro: aposta em
modelo de renda garantida na construção de um hotel em Belo
Horizonte
Mesmo se a taxa Selic não estivesse na mínima histórica,
investir em um imóvel que, além de uma eventual valorização, ainda oferece um
retorno de 0,8% ao mês, assegurado em contrato, por até um ano e meio após a
entrega das chaves parece uma oportunidade sem igual. Parece. Apesar de todas as
condições favoráveis à primeira vista, o investidor deve ter cautela, porque o
negócio tem seus riscos e só será vantajoso se o mercado imobiliário
ajudar.
Esse modelo, conhecido como renda garantida, ressurgiu
recentemente por iniciativa das companhias paulistanas EZTec e Tecnisa e da
mineira Patrimar. A estratégia consiste em transformar um eventual desconto na
venda em uma espécie de "aluguel" pago pela incorporadora ao cliente por um
prazo específico, por exemplo, 12 a 18 meses, depois da entrega da
obra.
Para o comprador o apelo é duplo: além do retorno
assegurado, ele pode acumular um ganho em dobro se alugar o imóvel para outra
pessoa durante o período em que vai receber a renda garantida. Ou, no mínimo,
consegue tempo até locar a propriedade. "Com o benefício, o cliente pode, por
exemplo, oferecer um desconto ao futuro inquilino para alugar mais rápido",
afirma o diretor comercial da Tecnisa, Douglas Duarte.
No caso das companhias, a rentabilidade da renda garantida
também funciona como atrativo a investidores que buscam alternativas à queda de
rendimento de aplicações atreladas à Selic. Na promoção da Tecnisa, o retorno do
benefício alcança 9,6% ao ano, além da valorização do imóvel propriamente dito.
Para comparar, a nova poupança deve render 5,6% mais variação da TR em 12 meses,
com a atual taxa básica de juros de 8% ao ano.
E como funciona na prática? Se um comprador quiser adquirir
um imóvel comercial na planta ou durante a construção com valor de, por exemplo,
R$ 100 mil poderia negociar um desconto direto. Em alguns casos, ele pode
alcançar 8% sobre o valor original. Ou seja, no fim teria desembolsado R$ 82 mil
pela propriedade. Se optar pela renda garantida, contudo, o desconto se
transforma no "aluguel" recebido pelo cliente em períodos de um ano a 18 meses.
A vantagem é que durante as obras o valor de referência para essa "mensalidade"
é corrigido pelo Índice Nacional do Custo da Construção (INCC), da Fundação
Getúlio Vargas (FGV).
No exemplo, se o INCC tivesse subido 10% em dois anos, os
0,8% mensais seriam calculados sobre um total de R$ 110 mil (desembolso original
mais a variação). Como o percentual da renda incide sobre um valor fixo, o
retorno nominal (sem considerar a inflação) alcançaria 9,6% em 12 meses. Sobre
esse recebimento, porém, o proprietário do imóvel tem de pagar Imposto de Renda
(IR), conforme a tabela progressiva.
Desde abril a Tecnisa oferece renda garantida em quatro
empreendimentos comerciais em São Paulo e em Curitiba, no Paraná. Segundo o
diretor comercial da companhia, é um produto com foco nos investidores. "E
queremos aplicar o conceito em todos os futuros projetos dentro do perfil desse
público, como escritórios, hotéis e residenciais com serviços",
afirma.
A pioneira da volta da renda garantida, que foi amplamente
utilizada no início dos anos 2000 na comercialização de flats, foi a EZTec. No
fim de 2011, a incorporadora lançou uma promoção do gênero para liquidar o
estoque de cinco lançamentos comerciais na capital paulista. No total foram 300
imóveis vendidos com remunerações mensais de 0,7% por até um ano. Mas,
diferentemente da Tecnisa, o cliente vai receber o pagamento de uma só vez ou
poderá abater 8% do saldo devedor na entrega das chaves.
A incorporadora de Belo Horizonte Patrimar Engenharia também
encontrou na renda garantida uma maneira de atrair clientes investidores. Por
enquanto, dispõe de apenas um projeto com retorno assegurado em
contrato.
Sucesso da aplicação depende do aquecimento da economia, que parece cada vez mais distante no curto prazo
Batizado de rendimento certo, o benefício vale para
compradores de unidades habitacionais de um hotel da bandeira Holiday Inn,
localizado no bairro Savassi na capital mineira. O cliente recebe uma parcela da
arrecadação da hospedagem e, caso a rentabilidade fique abaixo de 0,8% ao mês
sobre o valor do investimento ao longo de um ano, a Patrimar complementa a
diferença. "Temos uma estimativa de rentabilidade acima de 0,8% ao mês. A ideia
é assegurar o retorno no primeiro ano de funcionamento", explica o diretor
comercial e de marketing, Lucas Guerra.
Foi justamente a perspectiva de ganhos no médio e longo
prazos que atraiu o empresário Ricardo Monteiro, sócio de uma indústria de
esquadrias de alumínio em Belo Horizonte, a embarcar na renda garantida. O
investidor enxergou no futuro hotel Holiday Inn, da Patrimar, que será
inaugurado em 2014, uma oportunidade de ganhos. Em suas estimativas, o
empreendimento pode alcançar um retorno bem acima do 0,8% assegurados em
contrato. Nos cálculos de Monteiro, o rendimento pode chegar a mais de 1% ao
mês, o que lhe proporcionaria uma rentabilidade bruta de 12% ao ano apenas com a
renda.
O empresário pesou as características do empreendimento e do
mercado para avaliar a oportunidade. "O turismo de negócios tem crescido na
cidade, os hotéis de BH são defasados para eventos, há déficit de hospedagem
executiva e o ponto é excelente, no coração da Savassi, que para a capital
mineira é o equivalente à Copacabana no Rio de Janeiro", enumera Monteiro. "Na
minha visão, considero esse investimento como conservador."
A renda garantida, apesar dos atrativos, apresenta riscos e
exigências que fazem da aplicação algo restrito aos investidores com caixa mais
parrudo. Isso porque, em geral, o benefício é oferecido apenas na chamada tabela
curta. Nesse caso, o comprador deve quitar o valor total até a emissão do
"habite-se", ou seja, teria de desembolsar recursos de centenas de milhares de
reais em um período de dois a três anos.
Na tabela curta, o comprador pode negociar a melhor forma de
parcelamento, desde que dentro do prazo de construção. Em geral, costuma-se
pagar entrada de 10% a 12%, e dividir o restante ao longo do período, com 60% do
saldo a ser quitado por meio de mensalidades e 30% em semestrais extras. Para
ilustrar, em uma obra de dois anos, o comprador de um imóvel de R$ 100 mil
poderia desembolsar R$ 10 mil no ato e financiar o restante em 24 parcelas de R$
2,5 mil, além de quatro semestrais de R$ 7,5 mil cada.
O grande risco de empreendimentos do gênero, no entanto,
relaciona-se mesmo às condições de mercado. "A renda garantida aparece quando o
mercado se esgota, e os investidores têm receio de que esteja superofertado",
afirma o coordenador do núcleo de Real Estate da Escola Politécnica da
Universidade de São Paulo (USP), João da Rocha Lima Jr.
Na avaliação do especialista, as perspectivas para os
imóveis corporativos são negativas nos próximos anos. "Há uma nítida tendência
de baixa nos aluguéis comerciais devido à queda da procura", explica. "O 'rental
yield' médio [taxa de retorno de aluguel] hoje em São Paulo está em 0,5% ao mês,
o que significa uma remuneração de 6% ao ano", informa o coordenador do índice
Fipe/Zap, Eduardo Zylberstajn.
De acordo com Lima Jr, da Poli-USP, a demanda por
escritórios depende de um aquecimento da economia, que parece cada vez mais
distante no curto prazo. Além disso, as capitais devem enfrentar uma enxurrada
de ofertas de novos espaços empresariais com a conclusão, entre 2012 e 2013, dos
lançamentos realizados no ano passado.
O economista Luiz Calado, vice-presidente do Instituto
Brasileiro de Executivos de Finanças de São Paulo (Ibef-SP), também vê riscos de
mercado que a renda garantida pode maquiar. "As empresas do setor estão com
estoques altos e vendas em baixa. Nesse cenário, descontos ou renda garantida
podem ser uma armadilha. O risco é comprar um empreendimento, mas depois ele
estar valendo muito menos." O cenário menos favorável pode ainda aumentar as
chances de o imóvel ficar vazio. "É um perigo real, dependendo do ambiente que
se concretizar."
Os especialistas, no entanto, ressaltam que cabe ao
investidor avaliar a oportunidade do negócio com renda garantida caso a caso.
"Mesmo se o mercado se contrair, o comprador tem de avaliar se vale a pena
esperar para o investimento se concretizar daqui a alguns anos", explica Lima
Jr, da Poli-USP.
As companhias rebatem as visões pessimistas. Para as
incorporadoras, a "nova" renda garantida funciona como uma estratégia focada em
ganho de escala e atração de clientes investidores, um perfil cobiçado no setor.
De acordo com o diretor comercial da Tecnisa, Douglas Duarte, com o benefício, a
velocidade de vendas aumenta e o empreendimento melhora sua performance
financeira devido à maior participação de compras na tabela curta. "Quanto mais
comercializamos unidades dentro desse prazo menor mais ganhamos capital de giro
para comprar novos terrenos e fazer investimentos", afirma. Segundo o executivo,
houve aumento 70% nos contratos fechados em tabela curta nos lançamentos com a
promoção.
Especialistas lembram lições do passado como
alerta