Segundo dados do Instituto Pereira Passos (IPP), órgão da Prefeitura do Rio de Janeiro, ao longo da avenida Brasil existem 59 favelas - mais de uma por quilômetro -, instaladas em um raio de 200 metros das pistas, sendo que muitas estão às margens da via. Quanto maior a distância, maior o número de comunidades precariamente urbanizadas. Segundo Eduardo Pinho, superintendente do Shopping Jardim Guadalupe, são 92 favelas na área de influência do empreendimento.
Além do projeto da Secretaria de Desenvolvimento do Estado, que busca atrair centros de distribuição para ocupar ou substituir velhos galpões industriais desocupados, a Secretaria de Urbanismo do município tem, ainda em gestação, um trabalho denominado "Revitalização da Avenida Brasil e Entorno - Zonas Industriais e Corredores Relevantes".
Quem percorre a avenida Brasil de ponta a ponta, percebe que, apesar do surgimento de alguns empreendimentos revitalizantes, o que ainda prepondera é uma paisagem dominada por galpões abandonados, depredados ou até ocupados irregularmente. Todas essas construções são herança de um período em que a região era uma das áreas industriais da cidade.
No trecho inicial da avenida, os bairros de São Cristóvão e Benfica, a recente recuperação do antigo prédio do "Jornal do Brasil", ampliado e transformado em um grande hospital de traumatologia e ortopedia, trouxe um ar de modernidade. Logo adiante, no entanto, na direção de Santa Cruz, galpões como o da antiga fábrica do Sabão Português, referência na cidade, ainda passam um clima de decadência e abandono.
Do outro lado das pistas, a situação não é diferente. O grande prédio onde funcionou por muitos anos a concessionária Santo Amaro também mostra um ar de abandono. Desapareceu um famoso letreiro de uma transportadora, que virou bordão popular: "O mundo gira e a Lusitana roda". Mais adiante, na altura do bairro de Ramos, é conhecido dos cariocas o grande prédio de tijolinhos de uma antiga megaloja de autopeças (Borgauto), que virou favela vertical.
Embora não tenha como endereço a avenida Brasil, o conjunto de armazéns e lojas do Mercado São Sebastião, no bairro da Penha, um grande centro logístico e de abastecimento construído entre as décadas de 50 e 60, é outro antigo ponto de referência na avenida, que sofreu forte processo de degradação e cuja revitalização caminha a passos lentos.
Mais adiante, no ressurgente bairro de Irajá, outro grande centro de abastecimento, a Ceasa, vive situação oposta. Segundo o economista Christian Travassos, da Fecomércio-RJ, ela tem papel "preponderante" no destaque que o bairro apresenta na geração de empregos ao longo da avenida, ainda marcada pelos antigos ferros-velhos da zona oeste e que não esconde o envelhecimento precoce nem mesmo nas fachadas dos tradicionais motéis. (CS)
Shoppings focam na classe C e atraem moradores da região
Todos os dias, o motorista de ônibus Alex Sandro Samuel, 29, passa pela avenida Brasil diversas vezes, conduzindo os passageiros da linha 394, que liga a distante Vila Kennedy (zona oeste), produto da política de remoção de favelas das décadas de 60 e 70, à praça Tiradentes, no centro do Rio. Morador de Santa Cruz (zona oeste), na extremidade dos 58 quilômetros da via, Samuel desceu mais uma vez a avenida na tarde de uma quarta-feira de maio, dessa vez para passear com a mulher, Rosângela Ferreira, que fazia aniversário, e a filha Karine, de 9 meses.
O local escolhido para a comemoração foi o novíssimo Shopping Jardim Guadalupe, no bairro do mesmo nome, também na zona oeste. "Viemos de ônibus para conhecer, passear, lanchar e depois ir embora", resumiu, dizendo que o novo shopping da avenida Brasil é maior do que o existente no seu bairro. Ele aprovou o shopping, mas não poupa a avenida, apesar de reconhecer que o asfalto melhorou. "Não basta melhorar o asfalto, todo dia tem engarrafamento, tem veículos demais", lamenta.
Guadalupe é um bairro de classe média baixa, cercado de favelas, nascido em torno do conjunto habitacional Getúlio Vargas, construído na década de 40, quando a avenida Brasil ainda se chamava avenida das Bandeiras. O novo shopping, pertencente ao grupo Saphyr, foi construído no terreno da antiga fábrica do laboratório Sidney Ross, famoso por produzir o analgésico Melhoral e pelo campo de futebol à beira avenida.
Com 220 lojas e um mix focado prioritariamente na classe C, o shopping já conseguiu a proeza de receber em seu estacionamento 5.807 veículos no sábado dia 12 de maio, véspera do Dia das Mães. Segundo seu superintendente, Eduardo Pinho, a meta é faturar R$ 40 milhões no Natal de 2012.
No fim da mesma tarde em que Samuel e família passeavam no Jardim Guadalupe, a menos de dez quilômetros dali, em direção ao centro, o copeiro Erasmo Cordeiro, 32, e a irmã, Julia, saíram cheios de bolsas pelo portão principal do Via Brasil, o shopping vertical construído pelo grupo BR Malls no bairro de Irajá, próximo ao cruzamento da avenida Brasil com a via Dutra.
Os irmãos saíram de um outro extremo da avenida, o bairro histórico de São Cristóvão (zona norte), para conhecer o novo shopping, que, como o Jardim Guadalupe, levou para a avenida Brasil um conceito de comércio já consagrado em outras áreas da cidade e do país. "Vim de ônibus para conhecer e valeu ter vindo", conta Erasmo, dizendo que raramente vai a shoppings, embora já tenha trabalhado em um.
Também com 220 lojas e todo o aparato existente nos shoppings dos bairros mais ricos, o Via Brasil tem um perfil mais sofisticado do que o vizinho, por estar em uma região com padrão de renda ligeiramente mais elevado. Mesmo sem revelar números, o superintendente do shopping, Ricardo Lacerda, afirma que o primeiro Natal foi "acima das expectativas" e que, normalmente, são necessários de "dois a três dezembros" para que seja alcançado o resultado que o shopping de Irajá obteve no primeiro.
O economista Mauro Osório, um dos principais estudiosos da economias carioca e fluminense, tem uma visão crítica da presença de shoppings na avenida Brasil. Ele avalia que construir shoppings não pode ser uma prioridade no planejamento do resgate urbanístico da via. "O problema é que o shopping cria um gueto, uma ilha cercada de carências. É uma defesa contra a degradação no entorno. Nada contra, mas não pode ser central no planejamento." (CS)
Avenida Brasil troca velhos galpões por novo varejo
![]() |
| Moisés Alves Corrêa, que trabalha em uma barraca de frutas na avenida Brasil: retirada de até R$ 1,2 mil por mês, mesmo não sendo o dono do negócio |
Moisés Alves Corrêa, 52, é, eventualmente, peão de obra. Mas durante sete meses do ano, de fevereiro a agosto, há mais de 20 anos ele pode ser visto diariamente à beira da avenida Brasil, o principal acesso à cidade do Rio de Janeiro, entre caquis, laranjas, frutas-do-conde, mangas, cajás, morangos ou outra fruta da época.
A barraca de frutas, montada em um ponto quase rural da hostil e barulhenta via, entre os bairros de Santíssimo e Campo Grande, é o principal ganha-pão de Corrêa. Ele diz que consegue tirar até R$ 1,2 mil por mês, mesmo não sendo o dono do negócio. "No resto do ano, procuro trabalho em obra", diz quase em um lamento.
Coberta por plástico rasgado pelo vento contínuo, a barraca é apenas uma face informal (ainda que legalizada) da vida econômica dessa via um tanto caótica. Seja pela analogia óbvia com o país, seja pelo retrato que oferece dos contrastes da cidade, ganhou uma dimensão simbólica muito além das suas quatro pistas de asfalto e que vem rendendo muitos pontos de audiência à Rede Globo na atual novela do horário nobre. O cenário, em um fictício bairro suburbano, foi inspirado nos vários bairros com acessos a partir da avenida Brasil.
Como o brasileiro, o "PIB" da avenida também patinou durante pelo menos duas décadas, quando a vocação industrial foi pouco a pouco sendo suplantada pela imagem de galpões vazios, quando não depredados.
O país arrumou a casa nos últimos 18 anos, embora sem resolver todos os problemas, e a avenida Brasil também dá sinais de estar encontrando no comércio atacadista, varejista e de veículos, à semelhança da singela barraquinha de frutas, uma vocação que conta até com um programa de apoio do governo estadual. Dois grandes shopping centers foram inaugurados no ano passado.
Segundo levantamento da Federação do Comércio do Estado do Rio (Fecomércio-RJ), a pedido do Valor, a avenida Brasil contava, em 2010, com 1.707 estabelecimento formais de todos os ramos de atividade. Eles empregavam 8.921 pessoas. O trabalho foi feito com base em dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), considerando apenas estabelecimentos com endereço na avenida Brasil.
Por esse critério, mesmo que fosse baseado na Rais de 2011 (só fechada este ano), o levantamento não alcançaria os cerca de 2,5 mil trabalhadores do shopping Via Brasil que, mesmo tendo seu portão de acesso principal em uma pequena rua lateral, efetivamente fica localizado na avenida Brasil que lhe empresta o nome. O mesmo acontece com a Fábrica de Equipamentos Criogênicos (FEC), da White Martins, no bairro de Cordovil (zona norte) que emprega mais de 500 pessoas, segundo a empresa.
O levantamento não alcança também, por defasagem de tempo, os cerca de 3 mil empregados (segundo os administradores) do shopping Jardim Guadalupe e de suas lojas, inaugurado em novembro do ano passado na própria avenida. O Via Brasil fica no bairro de Irajá (zona norte), que, segundo o trabalho da Fecomércio-RJ, já concentrava em 2010 nada menos que 35,2% dos estabelecimentos (601) da via e 26,4% do total de empregados.
Christian Travassos, economista da Fecomércio-RJ responsável pelo estudo, observou que o comércio atacadista, varejista e de veículos responde por 58,6% do total de estabelecimentos com endereço na via. Se a eles for somado o comércio de alimentos, o número chega a dois terços do total, tanto de estabelecimentos como de empregados. "É um corredor fundamental na história econômica da cidade no século XX e, agora, no XXI. Uma história que vem da indústria, mas que, recentemente, se sustenta no atacado e varejo", diz Travassos.
Outro trabalho, da Secretaria Estadual de Desenvolvimento, relaciona 37 projetos de centros de distribuição de grandes empresas comerciais aprovados para instalação na avenida Brasil desde 2006, nove deles nos cinco primeiros meses deste ano. Esses projetos, quando em funcionamento pleno, vão gerar 6.027 empregos e acrescentar R$ 476,5 milhões à arrecadação anual de ICMS do Estado, segundo o estudo.
Entre os projetos, está o da construção do novo centro de distribuição do Ponto Frio, em Irajá, aprovado este ano e que vai gerar 440 empregos. O recém-ampliado centro de distribuição do grupos Hermes, dono do site de vendas eletrônicas Comprafacil.com, um dos maiores do Brasil, emprega 2,3 mil pessoas nos dois lados da via, no bairro de Campo Grande, mas, segundo a Secretaria de Desenvolvimento do Estado, alcançará 4 mil empregos diretos.
"A reconstrução da avenida Brasil é um dos principais desafios do Rio de Janeiro. Muito embora ainda haja uma base industrial importante instalada ao longo da avenida, reerguê-la e viabilizar outras atividades em sua extensão é tornar visível o ciclo de desenvolvimento pelo qual o Estado passa", disse o secretário estadual de Desenvolvimento, Julio Bueno.
Os centros de distribuição que estão se instalando ao longo da avenida têm a cobrança de ICMS reduzida faixa entre 1% e 2%, benefícios do programa Riolog. O programa não é específico para a via, mas Bueno ressalta que, por sua condição de portão de entrada da capital, ela tem "vocação natural" para receber esses investimentos.
Fonte: Valor Econômico
