Por Adélia Borges
| Antonio Citterio: "Luxo significa qualidade de vida. Passar a manhã na banheira de casa ouvindo música ou ler seu autor favorito num sofá confortável de sua sala" |
Em design e arquitetura, precisamos de profissionais capazes de deixar de lado as demonstrações de apreço ao próprio ego e passarem a adotar atitudes comprometidas com a melhoria da qualidade de vida das pessoas. O recado foi dado pelo italiano Antonio Citterio, em entrevista ao Valor no lobby do Hotel Fasano, em São Paulo, na semana passada. Citterio veio ao Brasil a convite da Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica para Revestimento (Anfacer). Ele foi o principal palestrante do Forum Internacional de Arquitetura e Construção, realizado durante a Expo Revestir 2012, que vai até sexta no Transamérica Expo Center. De São Paulo, esticou a viagem até Brumadinho, em Minas Gerais, para conhecer o Instituto Inhotim, a convite de seu diretor, o colecionador de arte Bernardo Paz.
Um dos principais nomes do cenário internacional em sua área, Citterio começou a trabalhar na década de 1970 como designer industrial. De 1987 a 1996, junto com Terry Dwan, desenvolveu vários projetos de arquitetura na Europa e no Japão, com forte foco em interiores comerciais e de varejo. Em 1999, criou a Antonio Citterio, Viel Patricia and Partners em Milão, adotando a partir daí uma atuação interdisciplinar. A empresa trabalha em design de produto, design de interiores, arquitetura, imagem corporativa e design urbano, tanto para o setor privado quanto para governos, com clientes em vários países.
Valor: Seu escritório desenvolve projetos para a "casca" dos edifícios e também para os interiores, chegando aos móveis, luminárias e outros componentes que estarão dentro dele. Como essas "partes" interagem?
Antonio Citterio: O trabalho que faço em interiores ou em produtos de design está inseparavelmente ligado à concepção do espaço. A evolução da minha carreira é baseada na mistura entre a abordagem conceitual do arquiteto e a criatividade do designer industrial. Trabalhar tudo de forma integrada requer uma compreensão profunda das necessidades do cliente, especialmente em relação ao planejamento do espaço, ou seja, a organização de layout de um componente de cada programa específico.
Meu trabalho nunca se concentra na criação de um único produto, mas está sempre inserido na estratégia corporativa
Valor: Seu projeto da sede da empresa de Ermenegildo Zegna em Milão recebeu em 2009 o prêmio Qualidade e Inovação da revista "Ufficiostile". Quais são as principais inovações do projeto e como eles podem significar mais qualidade para as pessoas que lá trabalham e para a própria empresa?
Citterio: Arquitetura contemporânea, áreas verdes, espaços abertos, lugares para estacionar o seu carro... Hoje, a qualidade da arquitetura, incluindo os serviços e as instalações que ela oferece, são muito mais importantes do que a localização de um prédio, e são aspectos decisivos na melhoria da qualidade de vida das pessoas.
A sede da Ermenegildo Zegna em Milão tem uma área de apresentação no piso térreo concebida como um teatro real, um "terraço interno" em torno do qual todos os espaços funcionais se desenvolvem. Banhada por luz natural, essa área que corresponderia à cobertura do teatro proporciona uma visão das diferentes atividades desenvolvidas no edifício - os escritórios comerciais, a área de relações públicas e ainda um showroom para cada uma das coleções da marca. Os funcionários se sentem à vontade, o que fomenta o espírito de equipe entre eles e o orgulho de trabalharem para uma empresa como a Zegna.
Valor: O senhor tem projetado muitos hotéis - do Bulgari em Milão e Bali até o Barvikha em Moscou, o W em São Petersburgo e um novo hotel boutique em Hong Kong. O que um hóspede precisa, espera e deseja de um hotel atualmente?
Citterio: Hóspedes de hotéis são muito exigentes hoje em dia, e geralmente esperam soluções de design extraordinariamente consistentes e coerentes. Em nossos projetos, estamos convictos de que tudo o que o hóspede pode ver ou tocar deve fazer parte de um mesmo conceito global. Esse conceito se desdobra em todos os detalhes técnicos, e deve integrar perfeitamente a forma e a substância do serviço prestado, visto de forma integral.
Valor: O senhor tem uma colaboração de longo prazo com empresas moveleiras importantes, tais como a B & B, da Itália, e a Vitra, da Alemanha. Qual é a sua intenção ao projetar móveis?
Citterio: Qualquer projeto de design deve ter como objetivo principal melhorar a qualidade de vida das pessoas que interagem com determinado produto. Eu projeto produtos dos quais pessoalmente eu mesmo sinto falta no dia a dia, ou ainda coisas cujo desempenho poderia ser melhorado, graças à resolução de problemas técnicos por exemplo. E sempre tento otimizar a relação entre qualidade, custo de produção e preço no varejo.
Tenho uma tendência a projetar famílias de produtos compatíveis, cada qual com uma função específica.
O design se tornou parte do processo industrial, uma realidade incontestável do mercado, com seu valor intrínseco
Valor: Mies van der Rohe disse uma vez que a concepção de uma cadeira é quase tão difícil quanto projetar um arranha-céu. O senhor concorda com ele?
Citterio: Concordo. Na minha maneira de trabalhar, seria impossível imaginar um produto sem iniciar com o conhecimento de uma tecnologia de produção, e sem já vê-lo interpretado numa estratégia de comunicação. Meu trabalho nunca se concentra na criação de um único produto, mas está sempre inserido na estratégia corporativa. Por isso meu envolvimento com as empresas que produzem os meus produtos é muito profunda.
Valor: Ao longo de sua carreira o senhor projetou várias luminárias. Se tivesse que escolher apenas uma delas como uma síntese do seu trabalho em iluminação, qual seria?
Citterio: Com certeza seria a Kelvin LED, uma luminária de mesa de trabalho que projetei para a Flos. Esse trabalho durou quatro anos, porque eu tinha que fornecer uma solução para competir com as peças clássicas deste segmento de mercado, que são as luminárias Tolomeo e Tizio. Eu mesma uso a Kelvin em minha mesa de escritório hoje.
Valor: Por favor, comente sobre o design no mercado de luxo. Quais são as especificidades desse segmento?
Citterio: Acho que hoje em dia luxo significa qualidade de vida: passar a manhã na banheira de casa ouvindo música ou ler seu autor favorito num sofá muito confortável de sua sala... Estar rodeado de objetos de que você gosta e que realmente servem para a finalidade que você tinha em mente quando os comprou.
Valor: O senhor trabalha para empresas em vários países - da Iittala na Finlândia à Hermès na França. Como está o mercado para o designer?
Citterio: O design se tornou parte do processo industrial, uma realidade incontestável do mercado, com seu valor intrínseco - e não me refiro apenas ao aspecto formal e estético. Mas estamos também sendo inundados pelo design "fake", supérfluo, do qual devemos nos proteger. Isso ocorre quando a mídia decide que um objeto está na moda, mesmo que seja realmente desconfortável ou não muito funcional. Devemos olhar em direção a outro tipo de design, o design real, que é a expressão do caráter contemporâneo do nosso tempo. Não é apenas a respeito de estética, o objeto não é puramente artifício.
Valor: E como conseguir esses bons produtos?
Citterio: Projetos sempre têm um pai e uma mãe - respectivamente, o designer e a empresa cuja colaboração, por meio da alquimia, leva à criação concreta do produto. Atualmente, contudo, o processo já não é tão simples. Cresceu o papel do varejista, daquela pessoa que oferece os produtos no mercado. Resultados positivos são alcançados quando os três elos - fabricante, designer e comerciante - falam a mesma língua, transmitem uma mensagem única e clara, a mensagem do valor do projeto, para os consumidores. E é bom lembrar que os consumidores estão cada vez mais bem informados e exigentes.
Valor: A economia global está mudando de mãos, e esse fenômeno está trazendo enormes mudanças em todos os campos da atividade humana. Qual será o impacto dessas mudanças macro sobre áreas como a arquitetura e o design?
Citterio: Se as projeções demográficas se confirmarem, vamos precisar construir no mundo o equivalente a uma cidade para 1 milhão de pessoas a cada semana! Esse é um desafio e tanto! A arquitetura e o design não podem deter esse crescimento, mas podem exercer um papel importante. Temos que ajudar a resolver os problemas logísticos da vida nas cidades, como o metrô, o sistema viário, caso contrário teremos o caos. No design, temos que projetar os bens de forma que eles gerem a menor quantidade possível de lixo, que eles usem menos energia, menos água. No entanto, ainda vemos muitos arquitetos e designers projetando apenas para contentar o seu próprio ego. Isso precisa parar. Há dez anos estou trabalhando com a empresa Vitra, que produz móveis para escritório, no sentido de pensar o que acontecerá com o produto no fim de sua vida, ou seja, quando ele parar de ser usado para a finalidade para a qual foi adquirido.
Há dois caminhos possíveis. Um é fazer o objeto com uma tal qualidade que o usuário não queira se desfazer dele. Ele vai ser mantido como uma antiguidade, digamos assim. Vai manter o objeto porque gosta dele. Outro caminho é já projetar pensando numa desmontagem muito fácil, que permita separar os materiais empregados no objeto - plásticos, metais, etc. -, para que possam ser rapidamente encaminhados para a reciclagem. É preciso ter esse pensamento também na arquitetura. O que acontecerá com um edifício quando ele for derrubado? Essa preocupação deve preceder o projeto. Hoje em 30 anos alguns prédios já ficam velhos, usam muita energia... Temos que fazer projetos atemporais, e que economizem recursos em todo o seu ciclo.
Valor: Essa é uma tarefa a largo prazo e que envolve necessariamente muitos atores, não?
Citterio: Sim, e todas as profissões têm a contribuir. É preciso também combinar os incentivos às boas práticas com as penalizações. Os donos de automóveis em Milão têm que pagar € 5 cada vez que entram no centro histórico da cidade - fora, é claro, os custos do estacionamento. Mesmo quem mora no centro, como eu, precisa pagar essa taxa toda vez que entra ali. Essa medida está sendo decisiva para diminuir a poluição na área central da cidade e torná-la mais habitável.
Valor: Como o senhor vê a presença dos países emergentes no cenário internacional de design? Por favor, refira-se especificamente aos países do chamado Bric - China, Índia, Rússia e Brasil.
Citterio: Projetos de design requerem a participação da indústria, e vários países emergentes só recentemente estão se organizando para a produção em massa. Mas, além da indústria, o design também precisa de uma forte rede de relacionamentos, de estímulos mútuos, e uma cultura de competição não só em preço, mas também em qualidade, e esses elementos todos precisam estar profundamente enraizados no território.
A proximidade geográfica dos sujeitos envolvidos, a sua história, suas capacidades criativas também contam. A reunião de todos esses elementos constitui um processo que está em andamento hoje em alguns países dos Bric. Por outro lado, a emergência do Brasil e da China no cenário mundial da arquitetura está agora sob o olhar atento de todos, graças à Internet e aos prêmios Pritzker obtidos por Paulo Mendes da Rocha e Shu Wang.
Fonte: Valor Econômico